marianna portela

try to realize
it's all within yourself
no one else can make you change
and to see you're really
only very small
and life flows on
within you and without you

5th May 2012

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VOCÊ VEIO, VOCÊ FOI

eu nunca te quis, jurei que jamais te quereria

 

mas em uma noite quente, me descuidei e você veio

me assustei, apavorei, quis fugir, quis gritar, quis colo

 

mas logo passou

e te amei quase que

instantaneamente

incondicionalmente

 

e por sua causa me senti mais amada e mais completa do que nunca

e por sua causa me senti mulher pela primeira vez

e mais bonita e mais frágil e mais forte

do que tudo

do que todos

e me permiti

e te quis, como jamais quis nada

e planejei

 

mas você teve de ir

tão rápido quanto veio, você foi

tão de surpresa quanto veio, você foi

embora

 

meu corpo chorou

chorou sangue

escorrendo pelo ralo

indício de que você foi meu

 

você foi

eu fiquei

 

fiquei sem saber o que fazer

com essa mulher

com esse amor

com esses planos

com essas lembranças

com esse sangue

 

você foi

eu fiquei

Tagged: amorperdasanguetristezapartida

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13th April 2012

Post

cansei de histórias tristes de esperança vã de amor.

porque descobri que finais felizes que chegam tarde não existem.

existem apenas começos certos.

existem apenas hojes serenos.

Tagged: amorfinais felizesserenidadeseus beijos sem os meus não daria

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21st October 2011

Quote reblogged from We are all on drugs. with 671 notes

E eu tenho vontade de segurar seu rosto e ordenar que você seja esperto e jamais me perca e seja feliz. E que entenda que temos tudo o que duas pessoas precisam para ser feliz: A gente dá muitas risadas juntos. A gente admira o outro desde o dedinho do pé até onde cada um chegou sozinho. A gente acha que o mundo está maluco e sonha com sonos jamais despertados antes do meio-dia. A gente tem certeza de que nenhum perfume do mundo é melhor do que a nuca do outro no final do dia. A gente se reconheceu de longa data quando se viu pela primeira vez na vida.
— Tati Bernardi

Tagged: amor

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Source: to-mysurprise

27th September 2011

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ESCOLHER

e aí você aparece (ou apareço eu) como você mesmo disse: out of the blue.

não te esperava. não me esperava.

e me pego pensando em você. e me pego sorrindo com ou sem sua presença.

e aí você me pergunta se com ele é sério. com o outro. aquele que chegou antes.

antes de você e eu sermos essa ideia estranha e agradável.

e aí você me pergunta se o meu coração está fechado.

e são duas respostas diferentes.

timing. bad timing.

tempo errado? não sei ao certo se é errado, mas incerto.

incerto na certeza de que você não me aceitará se pertenço a outro.

incerto na certeza de que ele não me aceitará se eu pertencer a você.

incerto porque quero você - me quer - quero o outro - me quer.

incerto porque quero pertencer a nenhum e aos dois.

e assim existimos, esbarramos num sentimento e outro.

mas, ah! as tremendas, imutáveis, dolorosas, alegres escolhas.

escolho ele. o outro. aquele que chegou antes.

mesmo sendo estranha e agradável a ideia de eu e você. persistente.

pois o coração está aberto. mas quem mora lá não pode sair.

Tagged: deck of cardslovecardsjack of heartsking of spadesdiceamorescolhas

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27th September 2011

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grande sertão: veredas - guimarães rosa

grande sertão: veredas - guimarães rosa

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8th August 2011

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PIA

Ela lava a louça neste calor desgraçado: de shorts curtos e regata sem sutiã, a água bate no côncavo de uma colher e ela espirra em seu corpo, os pingos trazendo um frescor repentino e bem vindo aos antebraços e o abdômen. Ela passa as costas das mãos molhadas na testa enquanto se perde na atividade tão rotineira, tão terapêutica.

A música no rádio muda, The Black Keys tocando alto, para que a água batendo no alumínio frio não abafe o som. “Lies, lies, lies” eles dizem. É para ela impossível não focar o pensamento naquele dia, um tanto parecido com esse.

Naquele dia em que as mãos dele  procuraram a cintura dela enquanto lavava aquela mesma louça, aquelas mesmas xícaras e o abridor de lata velho. No hálito quente dele que soprou na nuca dela, procurando afastar o calor que fazia os cabelinhos soltos abaixo do coque grudarem no pescoço. No dedo que puxou levemente a alça do sutiã para baixo. Na língua dele que procurou o lóbulo de sua orelha e a boca que disse carinhos cheios de insultos para deixar que não só as mãos continuassem molhadas.

E na espuma, na pressa, nas roupas respingadas de detergente com cheiro de limão que ficaram no chão da cozinha, no prazer delicioso, suado, afobado. Mãos. A sensação do alumínio frio em contato com a pele.

Ela fecha os olhos e suspira, a água em redemoinhos levando a espuma embora.

Lies, lies, lies.

A banda se cala e é hora de encarar aquela travessa com uma boa esponja de aço.

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1st August 2011

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Da Devassidão como Política da Fêmea de Todas as Eras

A purificação de uma mulher só é possível à medida que ela resolve ser uma devassa, como entre o povo tártaro;

devassa no sentido de não temer o despudor nem a língua salivante da inveja;

devassa como política libertária; como entre os negros do Rio Gabão e da Costa da Pimenta, que entregavam suas mulheres aos próprios filhos, a melhor das bênçãos;

como no reino de Judá; só a lascívia embeleza uma fêmea; só mesmo os povos embrutecidos pela superstição, reza o marquês, podem acreditar no contrário; e acreditar no contrário é ir contra nossa própria natureza.

catecismo de devoções, intimidades & pornografias - Xico Sá

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1st August 2011

Quote with 4 notes

mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

já sei a eternidade: é puro orgasmo.

— mimosa boca errante - carlos drummond de andrade

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25th July 2011

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BEM VINDO

Ela então esticou o tapetinho de sua porta, o tapetinho que dizia: bem-vindo.

Deixou sua porta entreaberta,  colocou um blues pra tocar na vitrola para que ele ouvisse e soubesse que era naquela porta que devia bater.

Foi cuidar de suas coisas, tomar um chá com especiarias, acendeu um incenso e esperou sem pressa, com um livro em mãos e pensamentos calmos.

Ao bater na porta, ele foi tão delicado que ela nem escutou. Quando viu, ele já estava ao seu lado, sussurrando baixinho a melodia que ela achou que só ela mesma conhecia.

Bem-vindo.

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20th July 2011

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BOLICHE

E de repente percebi que ia me ferrar bonito.

Mas tava aquele cara ali, os dentes dele eram certinhos e branquinhos e a gente tava jogando boliche numa terça feira de Carnaval no Guarujá e ele não tava gritando comigo só porque eu jogo mal pra caralho. E ele tava me pegando no colo e rindo e dizendo que eu era linda e muito engraçada.

E eu não tava nem aí pro fato de ele ter uma barriguinha protuberante ou pêlos no peito. Eu só via o sorriso dele e o fato de que a gente tinha escutado jazz a madrugada toda.

E foi aí que eu devia ter saído correndo, voltado pro hotel, pegado minhas coisas e ido embora no primeiro ônibus.

Mas não fui.

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19th July 2011

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PANACÉIA ESBAFORIDA

essa noite passada ninguém mereceu ser especial.


levanta cedinho e vê que um bando de gente já está vivendo antes de tomar o café da manhã.

moça nem feia nem bonita anda segurando uma sacola. do outro lado da rua, sujeitinho de bigode e barriga protuberante de chope olha pra ela com olhar guloso.

meninas em uniforme de colégio de freira riem juntas ao atravessar a rua.

bêbado dorme na esquina abraçando a vida que ainda resta.

homem anda cutucando o nariz, analisa a meleca com um olhar curioso.

pessoas sozinhas nos carros se dirigem ao trabalho. de manhã elas dirigem melhor do que à noite. várias aguardam o sinal vermelho.

para mim o sinal sempre está fechado.

pichação no muro perto da avenida: “nega, só deus sabe o tanto que te amo. 1000 beijos”.

Tagged: panacéia esbaforidacotidianopichação

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12th July 2011

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gosto de frases sucintas.

mimosas.

límpidas.

supremas.

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27th June 2011

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NÃO ME PEÇA

Não me peça aquilo que não tenho pra te dar.

Não me peça aquilo que demorou tempo demais para recuperar.

Não me peça a minha companhia numa tarde preguiçosa.

Não me peça pra te dar a mão enquanto caminharmos.

Não me peça para dividir uma taça de sorvete, de vinho, de expectativas.

Não me peça para te dizer quais são meus pensamentos, meus desatinos, minhas histórias.

Não me peça minhas músicas, meus filmes, meus livros, minha alma emprestados.

Não me peça para olhar nos teus olhos enquanto nossos corpos se entrelaçam.

Não me peça para olhar as estrelas da sacada.

Não me peça para acender as luzes.

Não me peça para rir de piadas que quer fazer só nossas.

Não me peça para chorar.

Não me peça para sentir.

Não me peça para amar.

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17th June 2011

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CAFÉ COM CHUVA

 

- Alô, você tá em casa?

- Oi, tô…

- Estou aqui na frente do seu apartamento! Vou subir, me faz um café!

- Ah. Ok.  Sobe aí.

 “Se você já está aqui, como posso dizer não? Burro”.

- Ah tá, eu não estou exatamente em frente, na verdade faltam uns 4 quarteirões ou coisa assim, mas eu tô indo, faz um café quente que tá chovendo cântaros, minha avó que falava assim: chover cântaros. Estou falando demais, lá se vão meus créditos, tchau.

O rapaz de olhos cor de mel desliga o celular e como quem leva um susto começa a pegar suas coisas espalhadas pelo chão e pela sala: duas camisas, uma bermuda, uma jaqueta de couro preta, três livros (filosofia, fotografia, mais um de filosofia), um tubo de dentifrício aberto com pasta seca na ponta, a tampa de lente de uma câmera, uma boina, uma pasta com negativos dentro, um relógio de pulso e um porta-retrato com a foto dela. Joga tudo dentro do armário. Coloca uma água pra ferver, “ela disse que quer café”

“Merda!”

Ele coloca uma camiseta, mas está amassada, coloca outra e “essa ela já conhece, estava usando da última vez que a vi”, essa outra “quem sabe? não, não”… Acaba colocando uma simples branca, pensando que “mais é menos”, uns jeans e a campainha toca.

Ele corre descalço pelo carpete de madeira clara empoeirado, “não deu tempo de varrer, droga!”.

A chaleira começa a apitar e ele abre a porta.

- Oi! - deixando a porta aberta - Entra aí! - Ele corre para a cozinha para apagar o fogo.

Ela coloca só a cabeça pra dentro da kitchenette pequena mas jeitosinha. Está fumando e joga o cigarro no corredor, pisando na bituca que rola pelo chão.

Está ensopada.

- Está um absurdo de tanta chuva lá fora. Você tem uma toalha aí? - Ela vai tirando os sapatos e os deixando pelo caminho.

Ele visualiza biscoitos quentes e doces, sente cheiro de canela, flores e tristeza e chaminés quando ela está perto. O coração dele para por meio segundo e ele se sente estranho, porque ela está tirando o casaco molhado e entregando-o a ele. A blusa dela é transparente e ele consegue vislumbrar os mamilos dela através do pano azul claro. Ela está usando um sutiã preto. “O sutiã é novo”, ele pensa. “Ela deve estar dormindo com alguém novo”.

- Você pendura isso aqui no banheiro pra mim? - Ela está tirando as meias, enquanto insistentemente sacode o casaco na frente dele. Ele pega o casaco e o coloca gentilmente no cabide atrás da porta do banheiro.

Quando volta seu olhar para ela, se perde no movimento de seus dedos passando por entre os cabelos molhados, ajeitando a franja de lado. Tem algo de molecagem e sensualidade de menina nela. Ele prende o ar por um instante e lhe entrega uma toalha listrada. Ela envolve a cabeça e sacode com vigor o cabelo cortado curtinho. Sorri. O coração dele para por mais meio segundo.

- Oi! - No sorriso dela ele se sente como se estivesse de frente pro mar em abril, a brisa passando por seu corpo, mas ao mesmo tempo ele sente como se uma adaga muito afiada estivesse atravessando seu abdômen. Sacode levemente o cérebro, para que esse prazer doloroso passe e o deixe ao menos falar.

Sorri olhando para os pés descalços, dele e dela. - Estou terminando o café lá, você pode deixar suas coisas aonde quiser, ok?

- Ok. Obrigada, querido. - Ela se joga em uma almofada grande e bege largada no meio da sala/quarto e tira um cigarro meio amassado da bolsa molhada.

Ele tenta agir como uma pessoa normal, casual. Pó de café no filtro de papel.

- E aí, meu querido? Como você está hoje em dia?

“Sentindo sua falta alucinadamente” - Estou ótimo e você?

- Como sempre, estou miserável, muito drama, muito caos. Ou seja, uma maravilha – ela ri igual bolinhas de sabão - Eu mataria por esse seu café nesse momento.

- Está quase pronto.

- Então anda logo que estou morrendo aqui, meu querido. Vou usar esse copo aqui como cinzeiro, tá?

“Vai deixar minha casa com cheiro de cigarro de cravo e vou lembrar dela por dias” - Ok, sem problemas, fica à vontade.

- Sabe, querido, eu estava indo pra casa, mas eu ia levar 37 horas pra chegar lá com essa chuva e esse trânsito nessa merda de cidade. Eu poderia ter pegado o trem, mas à essa hora é pedir pra ser estuprada, e eu não tava muito a fim de ser estuprada hoje, sabe?

Ele passa para ela uma xícara de café. Senta-se no chão ao lado dela, joelhos esticados.

- Eu estou te incomodando de passar aqui assim? Você não estava ocupado não, né? Mas se você quiser eu vou embora, é só pedir.

- Não, claro que não. Você pode ficar o tempo que quiser. Você sabe disso.

Ela encara os olhos cor de mel dele por alguns instantes. E então faz um movimento com a mão, como se estivesse afastando uma teia de aranha imaginária, como quem afasta um pensamento.

- Você é mesmo um querido. Me conte uma coisa. - Ela cruza as pernas, as barras da calça enroladas até o joelho. Ele nota um roxo na canela dela.

- O que?

- Qualquer coisa. O que tem feito ultimamente.

- Bom, nada de muito especial. - Ele encara a xícara de café em suas mãos.

“Não quero falar da minha vida agora. Ela sabe que estou me sentindo mal pra caralho por causa dela e que mal saio de casa. Ela sabe que penso demais nela. Porque ela finge que não é com ela?”

- Eu fui numa festa semana passada. Foi legal.

- Legal? Só isso? - Ela fuma como quem precisa de ar.

- É, foi divertida.

- Ah… divertida! - ela abre um sorriso matador. Ele sente a tal adaga perfurando tudo. - Me conte tudo! Foi na casa de quem? Conheceu alguém interessante?

“Se conheci alguém? Porque quer saber isso? Ela quer que eu a esqueça ou não?” - Não, não conheci. Bom, eu conheci uma garota, ela é legal.

- Legal… Ok. Esse é o único adjetivo que você conhece? Me conte mais sobre isso. Essa garota. Como ela é? Eu aprovaria? – sorrindo, termina o cigarro e joga a bituca dentro do copo.

- Nada aconteceu. Só conversamos.

- Você pegou o telefone dela?

“Onde quer chegar com isso?” - Não… mas ela pegou o meu.

 - Ela que te pediu?

- Sim. Eu estava sem meu celular e não pude anotar o dela.

- Ah, coitadinha.

- Coitadinha porque?

- Escute aqui, mocinho. - Ela aponta um dedo acusador pra ele -  Nunca mais faça isso, hein? - Ela se estica toda na almofada, colocando o braço atrás da cabeça, a voz jocosa e irônica. Tudo nela denota um ar de zombaria. Ele permanece sentado olhando seu café esfriar.

- Isso o que?

- Se você está interessado em uma garota, você deve pegar o número de telefone dela. Sempre, está me ouvindo, sempre peça o número. Não faça garotas te ligarem. É chato.

- Mas você liga pros caras.

- Mas isso porque eu sou uma vadiazinha que não sabe quando o cara está interessado ou não. E também não tenho paciência de esperar pra descobrir. Haha. - Coloca outro cigarro na boca.

- Você adora se denegrir, né? “Fico muito irritado com isso”.

Ela começa a gargalhar, enfiando a cara na almofada. O cigarro escapa dos dedos e rola pelo chão.

- Porque você está rindo? Não tem a menor graça! Cara, eu fico doido quando você começa a rir assim de mim. - Ele coloca as mãos na cabeça, para conter a vontade de tocar nela.

Ela para de rir e olha pra ele com um sorriso zombeteiro nos lábios, os olhos quase se fechando, analisando a expressão dele.

- Você não gosta que eu ria porque você se sente excluído. - Ela continua sorrindo, um sorriso cruel. - Você não gosta que eu ria porque você não suporta o fato de que eu sou feliz sem você e sem a sua falta de senso de humor.

Ele encara aquele sorriso e tudo dói.

- Como assim? - ele murmura.

- Você fica aí, me podando, meu querido, e se quer saber, nem foi tanto por isso que eu fui embora. Sabe porque eu fui embora? Porque eu dei pra todo mundo depois que saí desse apartamento naquele dia que você me pediu pra ficar? Sabe?

Silêncio.

- Quer saber, ou não?

- Porra, que merda.

E ela ri, aquela risada cruel e nervosa, não mais abafada, os pés pro alto, e, virada de barriga pra baixo na almofada, olha pra ele e ri ainda mais. E entre risos, sem pausas, diz:

- Você leva a vida muito a sério. Caralho, você leva até o sexo muito a sério e isso faz ficar ruim. O sexo, a vida, uma porra de uma cerveja, tudo. Você me deixa maluca quando começa com as suas crises existenciais sem o menor sentido, porque você é um puta filhinho de papai que até pra sair na rua precisa saber pra onde vai. Presta bem atenção no que eu tô te falando. Você é um ridículo. Cada parte de você me enoja, trepar com você me enoja, falar com você, comer com você, olhar pra você.

Silêncio.

Ela enuncia as palavras, a língua raspando devagar nos dentes branquinhos.

- Vo-cê me e-no-ja. Suas fotos, seus textos, sua chamada “identidade artística”, que você tanto preza… ai. Me cansa só de pensar na sua existência. A sua devoção me cansa profundamente, o que você chama de amor é patético pra mim. Será mesmo que você não percebe? Você é tão idiota assim?

Ela então deita na almofada, o sorriso já apagado. Olhando as unhas vermelhas cintilantes e cumpridas.

“Um gato brincando com sua presa… um gato de unhas vermelhas, arrancando meus olhos, sem me matar.”

Uma longa pausa cai entre os dois. Só o som dos carros dez andares abaixo e um vizinho passando no corredor lá fora.

“Então por que veio aqui?” - Então por que…

- Eu já te disse porque. Quando eu te conheci.

Silêncio.

- Por que?

- Porque eu uso as pessoas. Eu te avisei.E porque sua casa estava no caminho e seu café é muito bom.

Ela levanta bruscamente, desenrolando a barra das calças para baixo, pegando o cigarro perdido e a bolsa, calçando os sapatos.

Passa os dedos pelos cabelos molhados.

- Já parou de chover.

Sai, batendo a porta. Ele continua imóvel, sentado no chão, olhando a porta.

Ouve o elevador chegar, ouve os passos dela entrando no elevador, ouve o elevador partir.

E lembra que ela esqueceu o casaco no banheiro.

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4th May 2011

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APÓS

Ela vira pro lado, e deita com a barriga pra baixo enquanto puxa o lençol com o pé. Se estica toda para alcançar o copo no criado mudo e o maço de cigarros.

Ele está sorrindo, olhando pro teto com um braço embaixo do travesseiro. Com o outro braço tenta puxá-la para si, mas ela se desvencilha com um “pera aí”. Suado, ele passa a mão na barriga, sentindo seus músculos definidos. Passa o dedo em cada um deles, sentindo sua firmeza, num gesto impensado, familiar.

“E aí? Tá tudo bem? Foi como você achou que ia ser?”

Ela não responde. Preguiçosamente se senta na cama, com as pernas esticadas, o lençol por cima delas. Ergue um dos joelhos e apóia o copo nele, enquanto fuma. Dá uma tragada e solta a fumaça devagar. Também olha para o teto.

“É tão clichê fumar depois de trepar, você não acha?”

Ele olha pra ela, ainda sentindo seu abdômen. Se estica um pouco e dá um beijo no pescoço dela. Ela não esboça nenhuma reação, apenas continua fumando e bebendo, lentamente, seu olhar fixado no nada.

“Mas e aí? Você não me respondeu… foi como você achou que ia ser?” - Ele olha pra ela, ansiosamente, apoiado em um cotovelo.

Ela olha para ele com o canto dos olhos verdes. Tira uma mecha de cabelo vermelho da testa e suspira.

“Sinceramente? Não.”

“Como assim, não?”

“Não, ué. Não foi como eu achei que ia ser.”

“Foi melhor então?” Ele sorri, e faz menção de abraçá-la, puxando sua cintura.

Ela tira a mão dele.

“Cara, você é mesmo fascinado por você mesmo, não?”

“Como assim, gata?”

Ela revira os olhos, e empurra ele gentilmente.

“Nada não… deixa pra lá. Olha só, você quer um cigarro?”

“Não fumo. Faz mal pra saúde”.

“Ah, é mesmo… esqueci que você é o garoto-academia. E aquelas bombas que você toma, fazem bem?”

“Não é bomba, porra! É vitamina!”

“Ah, tá… Entendi.”

Ele se vira pra parede. Ela continua sentada, fumando seu cigarro lentamente, um dos seios aparecendo por cima do lençol que envolve seu corpo. O silêncio se estende por alguns minutos.

Subitamente ele levanta e coloca a cueca. Senta-se na cama, de costas para ela. Áspero e revoltado, diz:

“Mas como assim não foi como você esperava? O que você esperava então?”

Ela coloca o copo vazio no criado mudo, apaga o cigarro. Senta no meio da cama de pernas cruzadas, seu corpo magro e branco, sua nudez contrastando com o azul escuro do lençol. Ela joga a cabeça pra trás e puxa os cabelos para cima, fazendo um coque, enquanto diz, de maneira prática:

“Cara, olha só. Mais clichê do que fumar depois de trepar é perguntar pro outro qual foi a sua performance. A famosa pergunta “Como foi pra você” nada mais é do que um alimento pro seu ego masculino. Você na verdade quer ouvir que foi ótimo, um perfeito macho, que eu gozei que nem uma louca, que foi a melhor trepada da minha vida. Mas eu sou sincera. Você pergunta, eu respondo, simples assim. E eu sinceramente esperava… bem… o que se espera de sexo, normalmente? Que seja no mínimo excitante, não?”

Ele olha pra ela como quem não está entendo absolutamente nada, estupefato.

“E não foi? Porra!”

Ela deita na cama, espreguiçando-se. “Não, não foi. Desculpe se não era isso que você queria ouvir.”

Ele levanta, e começa a se vestir. Ela começa uma busca pelo maço de cigarros no meio dos lençóis. Acende um, deitada de barriga pra baixo.

Ele termina de colocar as meias, e bufando, com as mãos na cintura, diz:

“Acho que já vou então, se você não se importa.”

“Fique a vontade.”

Ele hesita por alguns momentos.

“Acho que você não vai querer que eu pegue seu telefone, né?”

“Na verdade não…”

Ele arregala os olhos. Calça os tênis e se dirige à porta.

“Acho que você não é normal”.

“Não, graças a deus”. Ela esboça um sorriso, e sopra a fumaça em direção a ele. “Quer que eu abra a porta pra você?”

“Por favor”.

Ela levanta, coloca o cigarro no cinzeiro, coloca uma camiseta jogada num canto e veste a calcinha jogada num outro.

Descalça, ela é mais baixa do que ele lembrava. O coque está se desmanchando, o rímel um pouco borrado. Mas isso a torna mais desejável. Ele sente vontade de pegá-la e mostrar que está errada, que ele pode ser excitante.

Ela gira a chave. Abre a porta.

“Até mais”.

Ele fica olhando para ela por alguns instantes, confuso.

Ela fica olhando para ele por alguns instantes, impassível.

“Até mais”.

Ela fecha a porta.

Ele fica parado olhando para a porta descascada. O prédio não tem elevador, ele desce as escadas.

Ela deita na cama e abre um livro.

(Illustration by Pascal Campion)

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